LAB CIDADÃO: A METODOLOGIA DO COCÔZAP EM OUTROS TERRITÓRIOS

Cinco coletivos do estado do Rio de Janeiro participaram de formação e consultoria especializada em análise e geração de dados. Diagnósticos produzidos denunciam dificuldades de acesso ao saneamento básico nas localidades.

“Aqui está o retrato da falta de políticas públicas e de moradia. Nesse mapa, conseguimos mostrar o retrato da violação dos direitos humanos. Eu sempre quis ter isso, mas não sabia como fazer”, declarou Anna Paula Sales, ao apresentar o mapa com denúncias de moradores do município de Itaguaí, na Baixada Fluminense, onde há 10 anos lidera a Associação de Mulheres de Itaguaí Guerreiras e Articuladoras Sociais (A.M.I.G.A.S). O mapeamento é resultado do Lab Cidadão, uma formação que ofereceu aparatos técnicos,  políticos e financeiros para análise e produção de dados para coletivos do Estado do Rio de Janeiro. 

Realizado pelo data_labe entre julho e setembro de 2025, o Lab Cidadão compartilhou metodologias inovadoras de participação social com cinco organizações. São elas: A.M.I.G.A.S; Ame o Santo Amaro, localizada no Morro do Santo Amaro, na Zona Sul da cidade; Observatório de Itaboraí, no município homônimo no Leste Fluminense; Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJDS), de Petrópolis, na Região Serrana; e Projeto Colmeia, que funciona em Niterói, também no Leste Fluminense.

A turma reúne tanto coletivos que já trabalhavam com dados, quanto os que se aproximaram da temática pela primeira vez.

As formações aconteceram de modo virtual e presencial, na sede do data_labe e também na Navezinha Carioca do Centro do Rio, fruto de uma parceria entre a organização e a Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia (SMCT). 

Os coletivos aprenderam técnicas básicas de estatística descritiva, análise de dados, a criar mapas sociais interativos e visualização de dados.

As aulas online e presenciais abordaram conceitos de análise, produção e comunicação de dados.

Tendo em comum a agenda da justiça climática, a turma investigou o saneamento básico em seus territórios tendo como referência a experiência do Cocôzap, projeto de mapeamento, incidência e participação cidadã sobre saneamento básico em favelas, que utiliza a metodologia de Geração Cidadã de Dados (GCD) para contribuir com as lacunas deixadas pelos dados governamentais.

Foi a primeira vez que trabalhamos com dados públicos”, conta Everton Ribeiro, do Observatório de Itaboraí

Os coletivos utilizaram dados do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para estudar o saneamento básico nos territórios e planejar projetos de impacto utilizando a GCD. Com a supervisão e o auxílio da equipe de dados do data_labe, a turma analisou diferentes níveis territoriais, dos recortes mais amplos até os setores censitários, que representam a menor unidade territorial analisada pelo órgão – foi nesse nível que a maioria dos coletivos encontrou as informações que precisava.  

Durante o processo, os projetos utilizaram a Base dos Dados, uma plataforma gratuita que reúne um repositório com dados públicos disponíveis de maneira organizada, democrática e de fácil acesso.

À frente das aulas ministradas, a cientista de dados do data_labe, Samantha Reis, destaca a importância da unidade territorial ao analisar indicadores relacionados à raça e gênero.

A ausência do recorte territorial reproduz invisibilidade, ignora as particularidades e desafios de cada comunidade. É fundamental construir pesquisas que considerem os sujeitos e suas raízes, evitando a abstração. Estamos falando de memórias e ancestralidade também”, afirma Samantha. 

A cientista de dados Samantha Reis conduziu os processos de pesquisa com dados públicos.

GCD: pesquisando o que os dados governamentais não contam

Por fatores como o difícil acesso ou falta de protocolos adaptados a diferentes contextos, diversas bases de dados públicos sobre pessoas ou territórios historicamente marginalizados não retratam a realidade vivida pela população. Daí a importância da Geração Cidadã de Dados (GCD).  A metodologia permite que as favelas  produzam seus próprios diagnósticos, a fim de propor soluções para os problemas das suas regiões. 

O coordenador de dados do data_labe, Polinho Mota, defende o potencial da GCD para a garantia dos direitos humanos, o fortalecimento das cidades e a adaptação às mudanças climáticas. 

“A GCD pode ajudar a especificar melhor os dados públicos, a complementar ausências históricas e visibilizar histórias difíceis de serem compreendidas com métodos universalizantes. Ao invés de defender apenas uma forma de solução ou monitoramento, a GCD permite a cada território criar diretrizes e recomendações alinhadas às suas necessidades”, afirmou Polinho. 

Com base nesta metodologia, os coletivos desenvolveram pesquisas junto a suas comunidades, com o objetivo de identificar os problemas vividos pelos moradores e propor melhorias nas políticas públicas com base em dados. Além do Cocôzap, os processos de construção de agendas locais, liderado pela Casa Fluminense, também serviram de referência nesta etapa. 

As pesquisas identificaram lacunas na coleta de lixo, os impactos dos deslizamentos e enchentes, entre outros indicadores relevantes para a garantia de direitos da população da Região Metropolitana do Rio. 

Os resultados foram apresentados a uma banca formada pela pesquisadora do Instituto Decodifica, Iná Odara; a professora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Prourb-UFRJ), Ana Lúcia Brito; e da Coordenadora de Informação da Casa Fluminense, Luize Ribeiro.

Integrante do Observatório de Itaboraí, Everton Reis apresentou os dados sobre irregularidades na coleta de lixo do município.

“Eram pessoas que estavam tendo a primeira experiência de trabalho com mapeamento e com setores censitários do IBGE, e os produtos que eles apresentaram ficaram ótimos. Isso mostra que, se você tiver a metodologia certa, não precisa ter formação na área de estatística ou de geografia. As ferramentas que o data_labe apresentou vão reforçar muito o trabalho deles no território. Eu espero que continuem a fazer isso com outras equipes”, afirmou Ana Lúcia Brito. 

Os dados levantados pelos coletivos foram sistematizados em um mapa conjunto que mostra detalhes dos temas trabalhados e as denúncias que eles trouxeram sobre saneamento básico e justiça climática.

Essa foi a primeira etapa do Lab Cidadão. Em 2026, haverá mais módulos sobre comunicação e advocacy, a seleção de uma nova turma e a participação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. 

“Compartilhamos as nossas melhores soluções para gerar dados de forma cidadã, em todos os sentidos, desde a formulação da ideia até a estruturação e comunicação dos dados. Agora, mais coletivos possuem ferramentas para que a luta a que eles se dedicam possa ser baseada em indicadores que eles mesmos produziram. O Lab Cidadão evidencia como é possível replicar uma metodologia que incentiva soluções baseadas e adaptadas ao território, e não o território se adaptar a um tipo de solução global”, argumenta Polinho. 

Com o nome oficial de “Dados & Democracia – Laboratório de dados nas periferias do Estados Do Rio De Janeiro”, o projeto Lab Cidadão teve proposta contemplada pela Emenda Parlamentar Individual nº 444200006, de autoria do Deputado Pastor Henrique Vieira, e concedido pela Secretaria de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social do Ministério da Ciência, Tecnologia e inovação.

Conheça as ferramentas utilizadas no Lab Cidadão

O Flourish é uma ferramenta gratuita para criar gráficos e mapas. Nela, é possível construir visualizações de dados dinâmicos que podem ser utilizadas posteriormente em diversos projetos. O site permite customizar cores, fontes, formatos e rótulos, em PNG, JPG ou em um link para embutir em sites e apresentações.

O BigQuery Studio é uma ferramenta gratuita do Google que facilita a análise de grandes bases de dados direto no navegador. Nela você pode buscar bases públicas grandes, cruzar informações diferentes e organizar tudo do seu jeito. Como roda na nuvem, o Big Query suporta bases de dados que uma planilha comum jamais suportaria. A plataforma é ideal para quem quer trabalhar com dados de maneira prática e sem travar o computador. Depois de organizar os dados, dá para exportar tudo em CSV ou mandar direto pro Flourish e criar gráficos interativos.

O uMap permite criar mapas com as camadas do OpenStreetMap e incorporá-los ao seu projeto. Nesta plataforma de código aberto, é possível escolher camadas do mapa; adicionar marcadores, linhas, polígonos; e escolher as cores e ícones.

Saiba mais sobre os coletivos do Lab Cidadão

Clique nos ícones do mapa para saber mais.

Mapa Brasil

Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS), Petrópolis

Nascido no contexto da pandemia de Covid-19, em 2020, o Todos Juntos Ninguém Sozinho (TJNS) é referência em letramento racial, ambiental e climático em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. O coletivo atua com pautas relacionadas à igualdade de gênero e direitos humanos.

No Lab Cidadão, a organização realizou um levantamento de dados sobre as experiências individuais e coletivas de moradores dos cinco distritos de Petrópolis sobre eventos climáticos extremos, como as chuvas que assolam a cidade desde sua origem.  Foram produzidos indicadores sobre perdas financeiras, físicas, saúde e bem-estar, e mobilidade.

Captura de tela dos slides produzidos pelo TJNS para apresentação no Lab Cidadão.

“Os dados mostraram que a cidade desde a sua formação tem um planejamento de ignorar ou empurrar pessoas negras para locais que são hoje de maior risco. Na pesquisa, a gente pode ver que no Alto da Serra, onde a maioria dos moradores é negra, os impactos são mais severos, inclusive com perdas físicas. Já a parte da cidade que é de descendência alemã e tem um recorte histórico de mais investimentos e melhor infraestrutura, apresentou impactos mais amenos”, afirmou Pamela Mércia, uma das representantes do coletivo. 

O TJNS pretende produzir uma cartilha a partir dos dados levantados na pesquisa GCD.

A equipe do TJNS destacou o impacto dos fenômenos climáticos na saúde mental dos moradores de Petrópolis.

A.M.I.G.A.S, Itaguaí

A Associação de Mulheres de Itaguaí Guerreiras e Articuladoras Sociais (A.M.I.G.A.S.) é um coletivo fundado em 2015, em Itaguaí, na Baixada Fluminense, e que atua no combate à fome, às desigualdades sociais e à violência de gênero. O coletivo promove justiça social e inclusão por meio de ações como cozinha comunitária, projetos de geração de renda, educação ambiental, campanhas educativas e apoio emergencial em crises, como na pandemia de Covid-19. O foco é transformar a vida de mulheres e comunidades em vulnerabilidade, garantindo dignidade, segurança alimentar e autonomia.

No Lab Cidadão, a organização buscou sistematizar os dados sobre saneamento básico e os direitos de moradia coletados na região ao longo de anos de atuação. Com o uMap, a fundadora Anna Paula Sales pôde organizar as fotos e vídeos produzidos pelos moradores durante as enchentes ocorridas no território, com o objetivo de documentar o histórico de violações de direitos e apresentar as denúncias às autoridades.

Anna Paula Sales explicou como direito à moradia e ao saneamento básico estão interligados em Itaguaí.

Sem saneamento básico, sem infraestrutura e sem coleta regular de lixo. Esse é o triste e cruel retrato das enchentes”, afirma Anna Paula, que lidera a associação há 10 anos.

Observatório de Itaboraí

O Observatório de Itaboraí surgiu em 2021 com o objetivo de investigar desigualdades e necessidades locais. A organização atua com advocacy, pesquisa, produção cultural, assistência social e educação popular, desenvolvendo estudos e campanhas que influenciam políticas públicas. 

No Lab Cidadão, o Observatório fez uma cartilha sobre saneamento básico focada na coleta de lixo, que mostra dados quantitativos e qualitativos sobre a temática. No documento, a organização apresenta dados que comprovam que a maior parte do município conta com o serviço de coleta, mas que não há regularidade ou efetividade no serviço.

O questionamento sobre o cenário da coleta de lixo em  Itaboraí surgiu durante as aulas da formação, quando os integrantes investigaram os dados do Censo do IBGE, que apontam que 98% do município conta com coleta, realidade muito diferente da experimentada pelos moradores.

A pesquisa GCD em Itaboraí se desdobrou em um instrumento de incidência política e educação ambiental.

Após pesquisar como funciona a coleta de lixo com moradores de diversas regiões do município, a organização produziu um infográfico informativo que traz os dados coletados e recomendações aos moradores e aos gestores públicos. No mapa coletivo do Lab Cidadão, é possível consultar o resultado do monitoramento. 

Acesse a cartilha do Observatório de Itaboraí aqui.

Projeto Colmeia, Niterói

Nascido em 2025, a Colmeia busca promover novas perspectivas de futuro, emprego e garantias sociais para jovens negros, periféricos e LGBTQIAPN+ de São Gonçalo e Niterói. O projeto pesquisa e monitora dados da população e conta com a participação de 100 jovens, entre eles 20 estudantes do Colégio Brasil-China, no Morro do Preventório, em Niterói, onde surgiu a iniciativa. Com foco em educação, trabalho e justiça climática, a Colmeia fortalece a continuidade educacional e o protagonismo juvenil.

No Lab Cidadão, a Colmeia buscou gerar dados sobre saneamento básico nas favelas e periferias onde moram os estudantes do Colégio Brasil-China. 

Um dos objetivos do projeto foi garantir o protagonismo da juventude negra e periférica no processo GCD, visando combater uma perspectiva vertical de produção de conhecimento, que é um dos pilares do Colmeia. 

A Colmeia procurou introduzir o debate sobre saneamento básico junto a estudantes dos municípios de Niterói e São Gonçalo.

Durante o processo, a Colmeia construiu parcerias com outras organizações que pudessem colaborar na expansão da GCD não só no colégio, mas também trazer outros jovens da região para a iniciativa. 

Ame o Santo Amaro

O Ame o Santo Amaro já impactou mais de 9 mil pessoas desde que foi fundado, em 2020. O coletivo se dedica ao fortalecimento de ações de educação que destaquem o protagonismo feminino, acesso à cultura, ao esporte e à inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho.  

Nos últimos anos, a organização se dedicou à produção de dados para reivindicar políticas públicas e atuar em prol da sustentabilidade e prevenção de desastres no Santo Amaro, favela localizada na zona sul da capital fluminense.

No Lab Cidadão, o projeto pesquisou sobre o descarte de lixo na favela, a fim de mitigar o descarte irregular, ampliar os postos de coleta e contribuir para a educação ambiental no território. 

O Ame o Santo Amaro é construído pela própria comunidade, que pensa e executa soluções baseadas em seus saberes e necessidades.

O Ame o Santo Amaro quer usar os dados gerados pela população para comprovar, junto aos órgãos públicos, que não há acesso ao saneamento básico no Morro.

Durante o processo, a Colmeia construiu parcerias com outras organizações que pudessem colaborar na expansão da GCD não só no colégio, mas também trazer outros jovens da região para a iniciativa. 

Brotamos todo mês na sua caixa de entrada para conversar sobre dados, tecnologia e comunicação.

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